Sim, sua filha pode ser princesa se ela quiser.




Incomodadas pelo excesso de textos que colocam as princesas com as vilãs do imaginário e do futuro das meninas, gostaríamos de trazer um contraponto e defender o direito que as meninas têm de serem princesas dentro do repertório das suas fantasias infantis.


Durante toda a formação da personalidade da criança é fundamental que ela tenha acesso a um mundo infinitos de personagens e papeis. Enquanto ela conhece, identifica-se e vivencia em sua fantasia os mais diferentes papeis, ela encontra maneiras de entender o mundo e a diversidade de possibilidades que ele oferece.


Fantasiar e imaginar faz parte do funcionamento da psique e tem efeito regulador para o desenvolvimento da personalidade. Na verdade, quando falamos dos contos de fadas e dos mitos não devemos entende-los apenas do ponto de vista pessoal ou como preditores de modelos de comportamento a ser ou não seguidos. Precisamos compreender que eles são construções simbólicas que falam do desenvolvimento da consciência e por isso seus personagens são geralmente esquemáticos e possuem relação com uma época e cultura específica.


Nos contos de fadas tudo é muito exacerbado. Os "bons" tendem a ser sempre "bons", os maus, sempre "maus". Se pensarmos no início das formações de conceitos das crianças fica mais fácil entender que as categorizações sejam mais extremas e antagônicas.


Cinderela por exemplo fala da passagem de um modo de consciência imaturo e passivo para um modo mais atuante e ativo. Ela recebe um modelo da mãe, o qual cumpre invariavelmente apesar de todos os prejuízos que este incide sobre si, até que o desejo a move e a faz, mesmo que ainda precise de ajuda, contrapor àquilo que era imposto. Somente sua atitude parcialmente ativa a tira do borralho e a coloca numa posição vantajosa. Dentro do repertório da criança, a vivencia da Cinderela pode entrar justamente nesta fase em que ela começa a transição de uma postura dependente dos pais para uma de autonomia e firmação de seus desejos.


Além disso, quando pensamos na passagem do tempo e as mudanças na sociedade temos visto o surgimento de outras princesas com comportamento bastante diverso do tipo frágil, passiva e dependente. Temos Frozen, Mulan, Valente, Fiona, etc. Todas elas trazem outros aspectos do feminino atualizados para os conflitos e necessidades mais adequados à nossa época e especialmente ao lugar que a mulher ocupa na sociedade atual.


Assim, a princesa corresponde simbolicamente ao nascimento da heroína na menina e surge como auxiliadora imaginária no enfrentamento das exigências que a saída gradual do mundo infantil exige.

É importante que a criança tenha seu momento princesa. Da mesma forma é importante que seja bruxa, rainha má, guerreira ou até o até Perna Longa. A fantasia só existe porque para ela não existem limites e nem censuras. Se, até hoje, as princesas foram tão importantes no imaginário das crianças não é só porque a Disney fez um bom trabalho de marketing. Nunca podemos nos esquecer que todo marketing é feito também avaliando a aceitação pública e, se existe aceitação, é porque dentro de si esse papel tem sua função necessária.


Logo, talvez a questão mais importante de uma criança que passa por sua fase princesa seja que ela o faça dentro da fase certa. O problema acontece quando, por algum motivo, papeis estereotipados ficam fixados até a idade adulta mantendo as mesmas características extremadas. É nessa fase que a fantasia pode ser tornar prejudicial se os componentes de realidade não tiverem sido suficientemente assimilados para mostrar que nem todo mundo é só bom ou só mau, de que para ser feliz não é necessário um príncipe (até porque ele não existe) e que a princesa perfeita dos contos de fadas poderia ser até chata e entediante. Neste caso, de heroína, a menina-mulher pode passar a ser alguém que perdeu a espontaneidade, a criatividade e a autonomia tornando-se o espelho do desejo alheio.


Portanto, não force ou estimule a sua filha, mas deixe ela ser uma princesa se essa atitude surgir espontaneamente. Inclusive você irá perceber que as personagens que lhe atraem se modificam com a idade, mostrando que ela precisa de diferentes papeis para abarcar a complexidade da construção da sua personalidade.