E quando a família não consegue cuidar do seu ente querido em casa?



Em algum momento da vida de nossas famílias precisaremos lidar com o adoecimento e a dependência temporária ou permanente de um de nossos entes queridos. Tal evento configura-se como um período de crise, o qual exige adaptação às novas demandas individuais e familiares como um todo. A primeira decisão a ser tomada é quem irá assumir os cuidados e se isso ocorrerá dentro ou fora do ambiente familiar.


Momento permeado por uma variedade de sentimentos, que, dependendo de como a família está estruturada, pode ser mais ou menos estressante. Cuidar de um outro ser humano exige um grau de desprendimento que nem todos são capazes de ter, ora por características pessoais, ora por falta de disponibilidade.


“A evolução da doença leva todos ao limite, roça todos os sentimentos e chega a colocar em causa alguns afetos. A perda de dignidade é obscenamente evolutiva e depressa chega ao ponto da ruptura. O internamento é tão inevitável quanto doloroso, tão necessário quanto adiado ao limite.”


Sónia Bigodes, em “O meu pai tem Alzheimer”


Diferentemente do que ocorria no passado, em que as famílias eram maiores e o cuidado mútuo entre os membros era algo comum e cultivado geração após geração, vivemos um momento de diminuição do tamanho das famílias, com papéis mais dinâmicos e flexíveis, sendo que a mulher que antes assumia o cuidado da família, também está, na maioria das vezes, no mercado de trabalho. Múltiplas questões que afetam a disponibilidade para o cuidado e que limitam o número de cuidadores em momentos de crise.


Assim, muitas vezes, quando a família assume inicialmente o cuidado de alguém doente, a responsabilidade recai sobre um ou poucos membros, que são chamados de cuidadores principais.


Estes dividem as responsabilidades sobre o cuidado físico, emocional e material do dependente, em detrimento de suas próprias necessidades individuais. Quando esse cuidado é intenso e transcorre ao longo dos anos é que os cuidadores principais se percebem, em algum momento, cansados, estressados e exauridos em sua capacidade de cuidar.


Quando alguém adoece não há datas e “O tempo se torna opressivo quando a liberdade acaba e nossa esperança deixa de existir. Quando vivemos naquele tipo de infelicidade diária, começamos a pensar que o tempo nos oprime.” filósofo Mauro Maldonato, falando sobre o tempo.


As dificuldades encontradas no papel do cuidador surgem de diversas fontes: isolamento social dentro e fora da família, perda de liberdade, privacidade e tempo de lazer; necessidade de adaptação do ambiente doméstico ou até mudanças de moradia; conflitos familiares em consequência do papel do cuidador e da situação de cuidado; exigências do doente ou dos demais familiares; insegurança em relação ao cuidado oferecido (se é correto ou não) e falta de informações sobre a duração do comprometimento assumido, que pode perdurar até o falecimento de quem está sendo assistido.


“Para quem cuida, a maioria das necessidades pessoais passa para o segundo plano. São raríssimos os casos onde é possível dividir as funções entre pessoas próximas e manter alguma qualidade de vida. Também pode existir a intensificação de conflitos de relacionamento quando o doente e o cuidador já não tinham uma relação pessoal amistosa. Ao contrário da simplificada ideia do doente como vítima, há o contraponto de aspectos psiquiátricos que podem ser agravados pela limitação e pela revolta com relação à dependência e à nova situação de necessidade cuidados. Um doente pode escravizar toda uma família e torná-la, em diferentes aspectos, tão doente quanto ele.”