As feridas de uma criança que sofreu violência física e/ou emocional

E a perpetuação da violência contra a infância em um mundo que ignora o cuidador



Um documento divulgado pela UNICEF em 2014 sobre a violência infantil, intitulado “Ocultos a plena luz: uma análise estatística sobre a violência contra as crianças” (traduzido) revelou sérias informações sobre a questão dos maus tratos e dos abusos contra menores.


Entre os alarmantes resultados deste levantamento temos que, 06 em cada 10 crianças pelo mundo sofrem castigos corporais regularmente pelas mãos de seus cuidadores. Além disso, 1 em cada 3 estudantes entre 13 e 15 anos sofrem com atos de intimidação constantes e 1 a cada 3 adolescentes entre 15 e 19 anos ao redor do planeta (84 milhões) já foram vítimas de algum tipo de violência emocional, física e/ou sexual.


O relatório enfatiza que, independentemente do tipo de violência que tenham sofrido ou das circunstâncias em que ocorreram, a maioria das vítimas permanece em silêncio e não busca ajuda.

Tristes consequências de um ciclo de violência que assola as vidas de crianças, jovens e de famílias por todo nosso mundo e que se perpetua devido a repetição de um padrão patriarcal negativo, embasado na punição e no abuso do poder, em detrimento da afetividade e do controle emocional.


“Um simples barulho diferente no portão era motivo para que o coração acelerasse. Para que a boca ficasse seca e as mãos trêmulas. Os pensamentos percorriam as memórias do passado e lá encontravam cenas de medo, agressão, descontrole e terror. Era possível ainda ver os olhos daquele que deveria proteger, embebido na raiva e na frustração. Era possível ainda ouvir no coração as palavras rudes, cruéis e descontroladas ecoando pelas paredes dos cômodos da casa. Era possível sentir o vento da cinta saindo para fora do passador da calça em direção ao pequenino corpo. Sentir o tapa, a força das mãos, o verdadeiro mal saído pelos poros daquele que deveria cuidar. Quando não estava possuído por tal gênio mal, era bom, calmo, confiável. Mas, quando estava dominado por algo que, talvez nem mesmo ele, conhecesse o nome e a origem, aí era possível sentir a vida por um fio. Impossível não chorar, impossível não temer. Era briga de poder para qual ainda não se tinha tamanho para enfrentar. Só restava esperar, que o barulho do portão fosse daqueles dias calmos e silenciosos. Só restava esperar que não fosse preciso ficar quietinha para não cutucar o gênio mal. Só restava sentir que havia uma única fagulha de controle sobre a próxima cena. Prever, antecipar, suportar a ansiedade, se esconder nas veredas da fantasia... esperar passar o tempo... para poder crescer e se transformar numa pessoa boa e capaz de não repetir a história”. (Inspirado no relato de vítimas da violência doméstica na infância)


A violência não é só física! Bater em uma criança é um ato de covardia. É bater em alguém que não tem a mesma força para se defender e por isso fica humilhado e rendido. O adulto abusa do “poder” que ele acredita exercer diante de uma criança indefesa e sem força de reação adequada para impor quem “manda” na relação.


Mas, não é só a violência física que machuca. Palavras e atitudes podem ferir muito mais e, mais profundamente. Podem causar danos irreversíveis no desenvolvimento da personalidade de uma criança. Menosprezar, xingar, humilhar, ignorar, imprimir medo, coagir, negligenciar (seja a própria criança ou outro membro da família) é tão violento quanto uma surra de cinta. Não deixa marcas visíveis, mas fere a alma, a autoestima e autoconfiança.


Quando, por exemplo, um pai ou mãe chama seu (sua) filho (a) de burro (a) porque não está indo bem na escola, só está fazendo com que ele (a) acredite que realmente é burro (a), incapaz e que nunca irá conseguir aprender nem fazer nada certo na vida. A criança acredita, pois, os pais são seu primeiro contato com o mundo. São as pessoas em quem ela deveria confiar, se espelhar e de quem deveria receber carinho. Nós nascemos totalmente dependentes do mundo que nos cerca, vivenciamos o mundo e aprendemos sobre através das relações com nossos pais e cuidadores e, assim, vamos nos desenvolvendo e adquirindo recursos próprios para enfrentar a vida adulta.


Colocar a criança em situação humilhante, menosprezá-la ou tratá-la com desdém certamente provocará danos tão brutais quanto o uso da violência física. A violência não ensina a criança os motivos pelos quais deve apresentar um comportamento esperado. Ela só ensina a criança a ter medo das reações agressivas do adulto e, portanto, a obedecer para evitar que o trauma se repita novamente.