Amar é também desapegar na medida certa

Atualizado: 9 de Out de 2019



Dependência emocional, ciúmes, possessividade, controle e desconfiança! Quantos dos nossos relacionamentos são marcados por essas características tão destrutivas? Qual seria a origem de tantos males? Porque muitas vezes não conseguimos viver formas mais livres e genuínas de amor? Porque nos custa o desapego, tão necessário às relações saudáveis?


O Psiquiatra suíço, C. G. Jung sabiamente afirmou que “as grandes decisões da vida humana estão, em regra, muito mais sujeitas aos instintos e a outros misteriosos fatores inconscientes do que a vontade consciente, ao bom-senso, por mais bem-intencionados que sejam”. Assim, para entendermos esta questão precisaremos ir a fundo nos aspectos que permeiam o relacionamento humano.


Há muito tempo as pesquisas em neurociências empenham-se em desvelar os meandros das relações humanas. Hoje, já é sabido que nosso cérebro executa sua plasticidade a partir das interações que nos proporcionaram, e das que fomos capazes de fazer ao longo de nossa vida. Ou seja, nosso futuro não é um fato isolado, mas uma consequência daquilo que oportunamente nos foi possível aprender e apreender desde que fomos concebidos, somados às nossas capacidades individuais. Assim, quando se trata de entender as relações, nos é necessário considerar o modo como estas são construídas desde a nossa infância.


Somos essencialmente sociais e subjetivos! Quando bebês, carregamos dentro de nós um instinto de ligação e formamos com nossos cuidadores uma importante relação de apego. Ao mesmo tempo, eles também se ligam a nós. Este elo que se forma, fundamental ao cuidado e à proteção da vida, poderá oferecer ao indivíduo um senso de segurança, que lhe garantirá a sobrevivência psíquica, ainda que em ambientes ameaçadores.


As relações de apego são essenciais para a ativação e estimulação das nossas capacidades e habilidades, potencializando o crescimento humano. As primeiras interações são primordiais para que a criança crie registros de memória de segurança ou insegurança diante do mundo que a cerca. Esses vínculos poderão marcar o tom emocional que daremos aos fatos por toda a nossa trajetória de vida, influenciando nosso comportamento, nossa percepção da realidade e expectativa do futuro, em geral de maneira inconsciente.


Quando o cuidado ocorre na medida certa, crescemos com uma base segura e confiante! Serão sólidas nossa autoestima, independência e autonomia. Consequentemente, nos relacionaremos com os outros de maneira mais leve, harmoniosa e saudável.


Mas, esse carinho e proteção na dose ideal, não é tão fácil assim de acontecer. No nosso nascimento estamos condicionados à biografia dos nossos pais, à nossa genealogia e ao nosso self social e cultural. E no caminho da evolução humana temos encontrado inúmeros desafios para a realização plena dessa medida certa do cuidado.


Dominados por uma cultura predominantemente patriarcal, desde cedo impomos regras para a expressão do amor. Tendemos a ditar o que é certo e errado, a traçar curvas de normalidade para os comportamentos, enquadrar e organizar as experiências humanas em padrões morais, estéticos, herméticos e racionalizados. O conhecimento e o relacionamento por meio da experiência dos sentidos e das sensações, mais ligados à experiência do matriarcal, ficam negligenciados e, por consequência, perdemos o contato com nossa essência e com os caminhos do amor verdadeiro.


Nesta continuidade histórica, podemos nascer em famílias despreparadas para oferecer essa relação de apego seguro, porque elas mesmas não vivenciaram tais experiências na construção de suas personalidades, levando à diante um ciclo contínuo de transmissão intergeracional de insegurança.


Muitas crianças sobrevivem hoje em lares devastados pela insuficiência de amor, nos quais prevalecem as relações de poder, de insegurança ou de indiferença. São envolvidas nas agressões, nos limites rígidos, nos descontroles, vícios, ciúmes, possessões, processos depressivos, choros contidos, isolamentos, distanciamentos afetivos e em tantos outros processos desumanizantes. Flagelos à alma ainda indefesa e em desenvolvimento, que fazem com que o amor e a capacidade de amar, cresçam minguados, confusos e solitários,