Sobre a capacidade humana de enfrentamento e resiliência



Você tinha planos, sonhos, expectativas, desejos por realizar. Tudo corria aparentemente bem até que de repente algo dá errado: um imprevisto, um esquecimento, uma má notícia, uma reviravolta de qualquer tipo... enfim, você toma uma verdadeira rasteira da vida!


Todos nós já vivemos algo assim em determinado momento das nossas vidas, não é mesmo?


É com os tropeços que aprendemos a levantar. É com as quedas que adquirimos experiência. É com as lições da vida, muitas vezes duras de digerir, que passamos a prestar mais atenção no nosso caminho, a entender qual deve ser o andar e como devemos recuperar o equilíbrio.


Mas, é evidente que cada um de nós lida de uma maneira diferente frente a esses desafios de adaptação. Percebemos que existem pessoas que, quando tomam uma rasteira, ficam lá, verdadeiramente estateladas no chão, em choque, não conseguem reagir. Às vezes demoram muito tempo para conseguir esboçar qualquer reação. Por outro lado, há aquele que rapidamente encontra uma saída, reage com força e estabilidade e, como diz a música de Paulo Vanzolini, reconhecida na voz de Beth Carvalho “reconhece a queda e não desanima... levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.


O que faz com que alguns hajam de uma maneira e outros não? O que acontece no momento em que sofremos a perda, nos frustramos ou nos desiludimos? Como adquirir uma capacidade maior de enfrentamento nessas ocasiões?


Independente da rasteira que levamos, elas se configuram um período de crise em nossas vidas, e exigirão de nós uma resposta adaptativa frente ao inesperado. Nosso corpo e psique reagirão ao acontecimento. Uma série de processos neuroquímicos irão se iniciar para responder ao estresse desencadeado pela situação. Nossa psique também reagirá da mesma forma, produzindo respostas diferentes dependendo da nossa história de vida, do nosso padrão de funcionamento psicodinâmico, da nossa personalidade, dos nossos esquemas de memória armazenados no cérebro, dos recursos egoicos e das nossas defesas disponíveis. Pode-se imaginar como todo esse quadro é muito complexo e variável.


Porém, do mesmo modo que nosso corpo oferece algumas respostas previsíveis e que fazem parte da evolução da nossa espécie, nossa psique também parece reagir de maneira semelhante aos traumas e as perdas. Assim, é comum que a surpresa inicial da rasteira que levamos seja vivenciada com uma sensação de choque! Ele faz parte do exato momento em que a situação estressante acontece e você poderá identificá-lo facilmente através de uma sensação nítida de que não acredita que aquilo está acontecendo. Você poderá sentir o seu corpo gelar, sua mente desligar e não conseguir processar as informações do ambiente. O choque nos mostra que a situação é muito maior do que o nosso Ego consegue integrar na realidade psíquica daquele instante. E ele pode dar lugar a uma resposta de enfrentamento da situação ou nos conduzir a um estado de negação intelectual ou emocional sobre o que está acontecendo.


A negação nos mostra que não temos recursos internos para lidar com o fato doloroso e, portanto, tentamos fingir para nós mesmos que nada está acontecendo, porque estamos com muito medo, ansiosos e frágeis. Neste momento precisaremos encontrar proteção e suporte para, aos poucos, encontrar as forças que existem dento de nós.


Quando o choque e a negação passam, costuma surgir uma verdadeira avalanche de emoções. O medo, a frustração, a raiva, a dor, a irritação, o sofrimento, tudo vêm à tona, fazendo-se necessária a expressividade emocional. É preciso “por pra fora”! Quando não fazemos isso e bloqueamos a reação emocional, também não permitimos a descarga da resposta corporal devida. É como se estivéssemos frente à frente com um leão e não pudéssemos lutar ou fugir. Nosso corpo entende que seremos devorados e então paralisa!


A expressividade emocional pode acontecer pelas vias da palavra, mas também da arte, da dança e do corpo. Só precisaremos ter cuidado para não extravasar através da agressão contra si e ou contra o ambien