Rompendo as prisões invisíveis da existência



Engana-se quem se considera totalmente livre ou acredita que o mundo é realmente como se vê. De certa maneira, e em alguma dimensão, somos todos prisioneiros de nós mesmos e, por essa razão, vemos o mundo como somos!


Cada um enxerga a vida através de suas próprias lentes e o que nos compõe na trama da vida depende de inúmeros fatores biológicos, psíquicos, sociais, culturais, familiares, etc. E como grande parte da nossa vida consciente sofre influência dos aspectos inconscientes, nunca seremos totalmente donos da verdade, das nossas próprias casas internas e das nossas decisões.


Claro que nunca poderemos perder a noção de responsabilidade e de livre arbítrio pois, se assim fosse, seria impossível nos organizarmos em sociedade e até mesmo entender que ampliar a nossa consciência é a melhor forma de estarmos mais aptos ao discernimento, às relações de alteridade e ao exercício da ética na vida diária.


Porém, desde a introdução da Psicanálise de Freud a partir dos estudos das neuroses e da hipnose até as descobertas de Jung sobre o conceito de complexo existente na Psicologia Analítica, os fatores inconscientes e sua influência sobre o comportamento humano são amplamente estudados e divulgados, tanto na área científica quanto no senso comum.


As descobertas mais recentes da neurociências vêm confirmando o que lá atrás já se teorizava através das observações e das análises. Partes diferentes do nosso cérebro são responsáveis pelo funcionamento da vida. Uma delas, o córtex pré-frontal é a responsável por nossas funções executivas, como o raciocínio, julgamento, pensamento lógico, simbólico, etc. Porém, essa estrutura não está pronta assim que nascemos, mas se forma durante toda infância até o início da vida adulta.


Em contrapartida, as partes que são responsáveis pelos comportamentos reflexos, instintivos e pelas emoções (sistema límbico e tronco cerebral) já estão funcionando a todo vapor. O bebê é capaz de interagir com seu cuidador e reagir frente às necessidades de fome e cuidado, mesmo que de maneira rudimentar.


Assim, as primeiras experiências são registradas e absorvidas prioritariamente nessas partes do cérebro que já se encontram prontas e amadurecidas, formando o que chamamos de memória implícita. Esse tipo de registro inconsciente não envolve a lembrança dos fatos (por isso não conseguimos lembrar do que nos aconteceu nos primeiros anos), mas influencia o tom básico do sentimento de si mesmo no mundo e também a formação dos registros conscientes posteriores.


Ao mesmo tempo, o córtex-frontal segue em franca expansão e formação com base nas nossas experiências e estímulos para o aprendizado. Mas também sofrendo a influência das outras partes do cérebro que podem distorcer a percepção, interferir nas expectativas do futuro e modificar o comportamento.


Neste ponto do texto você já deve estar se perguntando: - Mas o que tem isso a ver com essa história de vermos o mundo como somos e de não sermos senhores da nossa própria casa?